O objetivo deste blog é permitir aos navegadores, uma visão mais ampla de um mundo globalizado, onde as distâncias se encurtaram e as fronteiras foram expandidas, as novas mídias e tecnologias passam a fazer parte do cotidiano das pessoas. Assim, a criança e o jovem,considerados “ nativo digital ” , tem muita facilidade em utilizar esses dispositivos tecnológicos No entanto, ainda há adultos que encontram dificuldades no manuseio desses recursos em seu dia a dia.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
IRRESPONSABILIDADE CRIMINOSA MATOU 245
Bombeiros atestam que alvará de funcionamento da
boate Kiss estava vencido; tragédia matou 245 pessoas e ainda há dezenas
de feridos; donos do estabelecimento, que já havia sido notificado para
regularizar a situação, não foram localizados; maior número de mortes
ocorreu por asfixia; vídeo
27 de Janeiro de 2013 às 12:35
Do Diário de Santa Maria (RS) - O alvará do Plano de Prevenção de Combate a Incêndio da boate Kiss, cenário de uma tragédia que
vitimou 245 pessoas, na madrugada deste domingo em Santa Maria, na
região central do Estado, estava vencido desde agosto de 2012. A
informação é comandante geral do Corpo de Bombeiros do Rio Grande do
Sul, coronel Guido Pedroso de Melo.
Segundo o comandante, os bombeiros locais já haviam notificado a
boate para que providenciasse a renovação do alvará, mas isso ainda não
teria ocorrido.
Ainda conforme o comandante, o fato de a boate ter a liberação anterior significa que a casa noturna possuía o número de extintores de incêndio necessários, sinalização (indicando as saídas) e iluminação de emergência (que garante luminosidade por cerca de uma hora em casos de falta de energia).
Os bombeiros abrirão uma sindicância para verificar possíveis irregularidades.
— A informação que temos é que a maioria das pessoas morreu por asfixia. Algumas tiveram queimaduras. Mas temos a informação de seguranças da boate teriam barrado a saída das pessoas e que teria mais pessoas do que a capacidade do local — disse o comandante.
Os donos da boate não foram localizados pelo Diário para comentar o ocorrido.
A 1ª Delegacia de Polícia Civil de Santa Maria já começou a ouvir testemunhas e vai investigar o caso.
Ainda conforme o comandante, o fato de a boate ter a liberação anterior significa que a casa noturna possuía o número de extintores de incêndio necessários, sinalização (indicando as saídas) e iluminação de emergência (que garante luminosidade por cerca de uma hora em casos de falta de energia).
Os bombeiros abrirão uma sindicância para verificar possíveis irregularidades.
— A informação que temos é que a maioria das pessoas morreu por asfixia. Algumas tiveram queimaduras. Mas temos a informação de seguranças da boate teriam barrado a saída das pessoas e que teria mais pessoas do que a capacidade do local — disse o comandante.
Os donos da boate não foram localizados pelo Diário para comentar o ocorrido.
A 1ª Delegacia de Polícia Civil de Santa Maria já começou a ouvir testemunhas e vai investigar o caso.
Confira, neste link, vídeo com cenas da tragédia
ANTROPÓLOGA DISSECA O CASO DE RACISMO NA BMW
Segundo Débora Diniz, o mal-entendido
na concessionária da Barra reflete uma realidade brasileira: crianças
negras são invisíveis ao universo do consumo; charge do artista Máximo
compara concessionária a um navio negreiro
27 de Janeiro de 2013 às 11:22
247 - Foi um mal-entendido ou uma
criança negra é invisível ao universo do consumo de luxo no Brasil?
Confira, abaixo, a análise da antropóloga Debora Diniz, sobre o caso de
racismo numa concessionária da BMW na Barra da Tijuca, no Rio de
Janeiro:
Qual mal-entendido?
O casal, branco, queria comprar uma BMW no Rio; o gerente da loja, expulsar um menino negro de 7 anos. Era o filho deles
Debora Diniz*
Em nenhum momento, ele olhou para o nosso filho."
Priscilla Celeste Munk é mãe de uma criança negra de sete anos. No
catálogo racial brasileiro, ela é uma mulher branca. Sua branquidade se
anuncia pela cor da pele, mas também pela classe social. Foi como uma
mulher branca, acompanhada de seu marido também branco, Ronald Munk, que
vivenciou o racismo contra seu filho adotivo em um dos templos do
consumo de luxo no país - uma concessionária de carros BMW no Rio de
Janeiro. A cena foi prosaica: a família foi à concessionária e o filho
se entreteve com uma televisão. O gerente os atendeu como um casal
desacompanhado. Quando a criança se aproximou, a cor de sua pele resumiu
a impertinência de sua presença em um lugar onde somente brancos e
ricos seriam bem-vindos. Sem se dirigir ao casal, o gerente ordenou que a
criança saísse da loja: "Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é
lugar para você. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os
clientes".
Imagino que o monólogo do gerente com a criança sem nome
nem rosto, mas rejeitada pela cor, tenha sido adequadamente reproduzido
pela mãe. A combinação entre um "você" que olha, mas ignora a criança, e
um abstrato "eles", que não olha, mas registra a desigualdade, é
poderosa para resumir a racialização de classe da sociedade brasileira.
Em poucas palavras, o gerente oscilou entre dois universos, ambos
movidos pela mesma inquietação moral: como proteger os ricos dos pobres,
os brancos dos negros. O gerente não cogitou estar diante de uma
família multirracial, mas de clientes brancos e de um menino negro
pedinte que perturbaria a tranquilidade do consumo.
Até aqui, não haveria nada de novo para a realidade da
desigualdade social que organiza o espaço do consumo - engana-se quem
pensa que os shoppings centers são locais de livre trânsito: as regras
sobre como se vestir e se portar não permitem que todos igualmente ali
transitem. A impertinência do caso é, exatamente, estremecer essa ordem
silenciosa da desigualdade racial e de classe da sociedade brasileira.
Por isso, com a devida sensibilidade do capitalismo global, a
concessionária da BMW optou por descrever o caso como um
"mal-entendido".
"Preconceito racial não é mal-entendido", disse a família
em uma campanha aberta sobre o caso, porém com cautela sobre a
identidade do filho que se vê resumido à cor. Não tenho dúvidas de que
esse é um caso de discriminação racial - a cor da pele importa para o
reconhecimento do outro como um semelhante. É isso que chamamos racismo:
descrição do outro como um dessemelhante e abjeto pela cor de seu
corpo. A criança de 7 anos, antes mesmo de entender o sentido político
do racismo na cena vivida, foi alvo de uma rejeição que resume sua
existência. Assim será sua vida. O consolo familiar é que o garoto
redescreveu para si que "crianças não eram bem-vindas à loja" e não se
personalizou na rejeição pelo corpo. A ingenuidade infantil em breve
será vencida pela observação cotidiana de práticas racistas. Com a perda
da ingenuidade, a criança sem nome e com somente cor encontrará outro
grupo para traduzir sua experiência de sentir-se abjeta - não será mais
porque é uma criança em um ambiente de adultos, mas um adolescente, um
homem ou um velho negro em um mundo cuja ordem do consumo e da lei é,
ainda, branca.
Por isso, desejo explorar o argumento do "mal-entendido"
para além de uma estratégia infeliz de marketing. De fato, há um
mal-entendido ético que costurou o roteiro desse desencontro racial.
Para ser reconhecido como um futuro adulto rico e potencial amigo da
concessionária para a compra de carros de luxo, o garoto de 7 anos
precisaria habitar um corpo inteligível para a casta dos ricos. Sua cor o
torna um sujeito inimaginável. Para ser reconhecido, é preciso antes
ser inteligível à ordem dominante.
Crianças negras são ainda invisíveis ao universo do
consumo, o que pode parecer óbvio dada a sobreposição da desigualdade de
classe à desigualdade racial no País: negros são mais pobres que
brancos, um fato que alimenta intermináveis controvérsias sobre as
causas da desigualdade, se seriam elas de renda ou raciais. A verdade é
que as crianças negras não são invisíveis apenas na concessionária da
BMW, mas em escolas, hospitais ou espaços de lazer, isto é, como futuros
cidadãos à espera da proteção de uma sociedade que se define como livre
do racismo.
Como em um experimento sociológico, o caso da família
multirracial mostrou que a renda não é capaz de silenciar a rejeição
racial: a criança se converteu em um ser abstrato, parte de uma massa de
pedintes que incomodam os clientes ricos. Ao contrário do que imagina a
loja da BMW, o mal-entendido não se resumiu ao diálogo entre o gerente e
a família, mas entre quem imaginamos que somos como uma democracia
racial e o que efetivamente fazemos com nossa diversidade racial.
* Debora Diniz é antropóloga, professora da
Universidade de Brasília e pesquisadora da ANIS - Instituto de Bioética,
Direitos humanos e Gênero
sábado, 26 de janeiro de 2013
A GLOBO, AGORA VAI DE EDUARDO CAMPOS.
Em 25 páginas, Época exalta Campos. É candidato?
Revista semanal destaca, em sua capa
desta semana, "o governador mais popular do País". É ele mesmo: Eduardo
Campos, governador de Pernambuco, presidente do PSB e ator importante na
sucessão presidencial. Será que, agora, com empurrão das Organizações
Globo, ele se anima e assume uma candidatura presidencial?
O jogo de Eduardo Campos,
governador de Pernambuco, parecia claro. Enquanto o PT não se definisse,
ele continuaria em cima do muro. Sendo Dilma Rousseff a candidata, ele
arriscaria entrar na disputa já em 2014. Sendo o ex-presidente Lula, ele
brigaria para ser vice, deslocando Michel Temer. Nesta última semana,
Dilma obteve sua maior vitória em dois anos de governo, com a redução
das tarifas de luz e praticamente se impôs como candidata natural do PT.
Coincidência ou não, o deputado Beto Albuquerque (PSB/PE),
frequentemente apontado como porta-voz informal de Campos, disse que,
agora, o PSB estava livre para tentar seu projeto presidencial.
Se faltava um empurrão, ele veio agora. E partiu da
todo-poderosa Globo. Neste fim de semana, a revista Época dedica sua
capa (para sssinantes) ao "governador mais popular do País", numa
reportagem que espanta pelo tamanho: nada menos que 25 páginas. A
chamada, "Quem tem medo dele?", numa semana em que Dilma gerou os
principais fatos na política e na economia, certamente alimentará a
especulação de que a Globo encontrou seu candidato – uma vez que, no
PSDB, Aécio Neves ainda não lançou sua candidatura e José Serra continua
criando constrangimentos.
Abaixo, um trecho da reportagem assinada por Luiz Maklouf Carvalho:
O estilo, a trajetória e as ambições de Eduardo Campos, o governador mais popular do país
Quem é o protagonista da política nacional e nome
incontrolável nas conversas sobre sucessão presidencial – embora ele
insista em negar ser candidato
LUIZ MAKLOUF CARVALHO
Capa da edição 766 de ÉPOCA exclusiva para assinantes (Foto: Leo Caldas/ÉPOCA)
O governador Eduardo Campos,
de Pernambuco, é um ótimo piloto de cadeira giratória de rodinhas. Logo
ao sentar-se, elegante e espaçoso, já sublinha a que veio. A cadeira é
uma das 13 de uma grande mesa preta, em forma de U, na sala de reuniões
contígua a seu gabinete. Não terá um minuto de sossego por quase três
horas. Campos a manobra para todos os lados possíveis, a esporeia com o
ritmo acelerado de sua fluência verbal e, quando a leva, num tiro curto,
em direção ao interlocutor, o dorso ainda atlético de 47 anos também
assoma, enfático. Seus translúcidos olhos verdes são, surrupiando um
autor contemporâneo, como pássaros querendo voar para fora da cara.
Campos é, sobretudo, olhos. Na beleza variante da cor, que fisga a
atenção, e, principalmente, na mirada, no manejo que lhes sabe dar, ora
águia, ora cobra, focados na sedução. “Sedutor” é um recorrente
qualificativo até entre adversários regionais – como o senador Humberto
Costa, do PT, ou o deputado federal Mendonça Filho, do DEM. Campos sabe
que, nos dois casos, o sentido é “cuidado com ele!” – ambos, afinal, são
vítimas de peia eleitoral. Mesmo assim, não desgosta.
Não é o caso quando é chamado de “coronel”, como fez a revista britânica The Economist
em reportagem recente, que também registrou seu lado de gestor dinâmico
e empreendedor à frente do Estado que governa pela segunda vez, com
aprovação recorde – 89% na última pesquisa. Provocado – “O senhor leva
mesmo um jeitão de coronel...” –, Campos não esconde o desconforto. Leva
a cadeira para a frente e para trás, dá uma brusca freada de general e
responde:
– Isso só acontece quando alguém nasce por aqui. Nunca vi
um rótulo desses num político carioca, paulista ou mineiro. Então
lamento, porque é uma coisa desqualificando. Que maneira tenho de botar
ordem aqui? “É um coronel.” Tá bom. (Falar) é um direito (deles). Fazer o quê?
Entre dez governadores pesquisados pelo Ibope no final do ano passado, Campos obteve a maior aprovação: 34% acham sua gestão “ótima”; 45%, “boa”; 15%, “regular”; 4%,“ruim”; e 3%,“péssima”. É tamanha popularidade que explica por que tantos políticos têm se aproximado dele e que seja impossível discutir a sucessão da presidente Dilma Rousseff sem que seu nome venha à tona. Ele próprio negou, em entrevista publicada por ÉPOCA em dezembro, que pretenda se candidatar à Presidência. Na ocasião, disse que “sem dúvida” apoiaria a reeleição de Dilma. É nessa canoa que os pés de Campos estão, ambos. Antes da eleição municipal de Pernambuco, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava disposto a costurar sua candidatura a vice, já em 2014. Depois que Campos praticamente humilhou o PT, ao lançar candidato próprio à prefeitura do Recife – e vencer –, Lula e Dilma sabem que ficou mais difícil. O desejo de ambos é mantê-lo na canoa para, quem sabe?, um voo solo em 2018. Ser ministro de Dilma reeleita, em Pasta de visibilidade, é uma possibilidade.
Entre dez governadores pesquisados pelo Ibope no final do ano passado, Campos obteve a maior aprovação: 34% acham sua gestão “ótima”; 45%, “boa”; 15%, “regular”; 4%,“ruim”; e 3%,“péssima”. É tamanha popularidade que explica por que tantos políticos têm se aproximado dele e que seja impossível discutir a sucessão da presidente Dilma Rousseff sem que seu nome venha à tona. Ele próprio negou, em entrevista publicada por ÉPOCA em dezembro, que pretenda se candidatar à Presidência. Na ocasião, disse que “sem dúvida” apoiaria a reeleição de Dilma. É nessa canoa que os pés de Campos estão, ambos. Antes da eleição municipal de Pernambuco, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava disposto a costurar sua candidatura a vice, já em 2014. Depois que Campos praticamente humilhou o PT, ao lançar candidato próprio à prefeitura do Recife – e vencer –, Lula e Dilma sabem que ficou mais difícil. O desejo de ambos é mantê-lo na canoa para, quem sabe?, um voo solo em 2018. Ser ministro de Dilma reeleita, em Pasta de visibilidade, é uma possibilidade.
Gaúchos elegem livros para morrer antes de ler
A lista de autores "premiados"inclui nomes como
Diogo Mainardi, Lya Luft e até mesmo Demóstenes Torres, que publicou
suas máximas no Twitter
Milton Ribeiro,
Mentira. São 45 livros porque 5 receberam dois votos.
Inspirado por Carlos Willian Leite, do Jornal Opção, de Goiânia, o Sul21convidou
dez romancistas, poetas, ensaístas ou críticos literários para nomearem
as cinco piores obras de autores brasileiros que conhecem. Obviamente, a
escolha reflete o gosto pessoal e o conhecimento de cada um dos dez
“jurados” e não uma condenação irremediável. Trata-se de uma anti-lista,
contrária às listas habituais de melhores.
Ampliando a ideia inicial, pedimos que, a cada voto, fosse
acrescentada de uma a cinco linhas justificando a escolha. Por
iniciativa nossa, informamos aos votantes que não divulgaríamos seus
nomes, postura que foi rechaçada por dois deles, Fernando Monteiro e Ronald Augusto,
que têm suas iniciais apontadas logo após seus votos. Os outros
“jurados” apenas aceitaram as regras sem comentá-las. Deste modo, não
podem receber a imputação de terem planejado agir sob o manto do
anonimato…
Por falar em anonimato, o autor desta introdução não votou.
A seguir, então, em ordem alfabética por título, a lista dos 50 livros para morrer antes de ler:
Agosto, de Rubem Fonseca
Tive de ler por obrigação e acabei tomando ojeriza pelo personagem principal do livro: a azia do protagonista.
A Casa do Poeta Trágico, de Carlos Heitor Cony
Romance artificialmente construído, com pretensões de “clima
internacional” que termina por criar situações ridículas como a do casal
de amantes, personagens centrais, que passam uma noite inteira trepando
nas ruínas de Pompeia porque se distraíram (trepando, já) e não
perceberam que o sítio arqueológico havia sido aferrolhado, de acordo
com o horário de fechamento dos portões (17h). Tudo bem. O homem e a
mulher não se incomodam… Sem colchão, sem lençol, sem travesseiro, sem
mais nada, continuam a trepar e só vão sair das ruínas quando os
funcionários reabrem Pompeia para os turistas, às 10h da manhã seguinte.
É mole? Não. Teria que ser muito dura (a noite). Por cenas como essa,
melhor morrer antes de ler. (F.M.)
A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski
– Essa pérola do cancioneiro gauchesco tem uma das mais mal escritas
primeiras páginas da história da literatura universal. O resto do livro
vai pelo mesmo caminho.
– Contar a Guerra dos Farrapos a partir das mulheres próximas ao
general Bento Gonçalves não é ideia ruim. Mas é tudo canhestro no livro:
a narrativa, o enredo, a construção dos personagens. Uma leitura que
dura para sempre, no mau sentido.
A Divina Pastora, de Caldre e Fião
Achado um único exemplar num sebo de Montevidéu pelo livreiro Monquelat de Pelotas. Antes nunca o encontrasse!
A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães
Conto de fadas de superação do interdito social. História irrealista
que pretendia demonstrar que as tendências (pseudo) democráticas
dependiam apenas da boa vontade cristã das pessoas. Daí a Globo ter
exibido a novela que tanto agradou a classe média, sempre politicamente
equivocada e alienada.
A Guerrilheira, de Índio Vargas
Embora Índio Vargas seja autor de um dos livros mais importantes
sobre a ditadura militar, “Guerra é Guerra, dizia o Torturador”, este
aqui parece um esboço que alguém mandou inadvertidamente para a gráfica e
foi publicado sem passar por revisão. Falta foco, estrutura, cuidado
com a prosa, os episódios desmentem uns aos outros, repetem-se, quando
não se perdem em digressões que não acrescentam nada, nem tensão.
A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo
– Bobo. A fantasia não dá nem uma novela das seis, o texto é
primário. É um crime fazer os adolescentes lerem essa chatice dizendo
que se trata de literatura, pior, de um clássico. Esse livro só tem
importância dentro da história da literatura brasileira, coisa que o
professor pode resumir numa linha e poupar os alunos.
– Clássico absoluto e abominado nas salas de aula brasileiras, mas
permanece sendo lido, vendendo e com lugar cativo na alma de cada mau
professor deste grande país!
A Quarta Parte do Mundo, de Clovis Bulcão
A orelha promete um “épico eletrizante”, “baseado em fatos reais” (a
malfadada passagem de Villegagnon pelo Brasil). Na verdade,
“eletrizantes” são as imagens, algumas das mais feias da história da
literatura brasileira, como essa: “Uma robusta garça fora ferida e
grunhira como um porco”. O autor criou um mundo perigoso, em que os
personagens sentem apenas emoções-clichê, como uma “mistura de pavor e
ódio”, e em que podem ser “tragados por piratas ou pelos abismos do mar”
(tentemos visualizar isso…). Definitivamente não recomendo.
A Suavidade do Vento, de Cristóvão Tezza
Romance fraquíssimo, que nada tem a ver com a sutileza de um
Antonioni, em certa tarde, olhando para árvores descabeladamente
agitadas: “Como é fotogênico o vento!”, como registrou o mestre italiano
da (verdadeira) suavidade na sua “Trilogia da Incomunicabilidade”, bem
longe do realismo rastaquera do Tezza desse livro. (F.M.)
As Parceiras, de Lya Luft
Psicologismo mediano misturado com literatura convencional que tenta
disfarçar, sem sucesso, um estilo a meio caminho do entretenimento em
tom pastel e da autoajuda intimista. Narrativa para lobas fleumáticas.
(R.A.)
Bernarda Soledade, a Tigre do Sertão, de Raimundo Carrero
Muito ruim. Influenciado por Lorca (?) até no título, além das
situações de “dramaticidade” de estilo juvenil em torno de mulheres
confinadas à maneira exatamente de “A Casa de Bernarda Alba” (sem ter,
entretanto, conseguido imitar a qualidade do inspirado poeta andaluz).
Em tempo: não seria “tigresa”?… (F.M.)
Cai a noite sobre Palomas, de Juremir Machado da Silva
Há uma diferença bastante grande entre construir personagens
inteligentes e colocar frases de efeito e nomes de grandes pensadores em
suas bocas. Talvez o Juremir não soubesse disso ao escrever o seu
primeiro livro. Triste é perceber que segue sem sabê-lo até hoje.
Canto da noite, de Augusto Frederico Schmidt
Para ser justo com o falecido, eu poderia ter mencionado a obra
poética inteira como exemplo da pior poesia feita no Brasil. No gênero, o
autor talvez tenha sido a maior impostura de todos os tempos. Por ser
endinheirado e porque publicava os grandes poetas de seu tempo, era
apontado, por eles, como um grande poeta. (R.A.)
Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre
Não é nem romance nem obra sociológica. Até nos faz pensar que no
Brasil se praticou e se pratica a democracia racial , via miscigenação e
que na casa grande havia senhores bons e na senzala escravos submissos.
Cáspite !!!
Contra o Brasil, de Diogo Mainardi
– A história de um picareta que odeia o Brasil e passa o tempo todo
citando frases de viajantes e pensadores que desancaram o País e seus
habitantes. Acho que ninguém vai querer ler uma autobiografia do Diogo
Mainardi, mas por precaução, foi para a lista.
– Mainardi não tem muita preocupação com ideias, propostas,
alternativas. Sua intenção é de apenas bater, sua arte é a da objeção.
Um livro cuja intenção é a de vender o complexo de vira-latas do autor.
Não obtém o riso, não informa, não nada. Merece presença aqui.
Corpo Presente, de João Paulo Cuenca
É um mistério o prestígio que Cuenca desfruta como “autor da nova
geração”, já que sua obra parece reunir justamente os piores maneirismos
da sua geração: abuso de ironia, pretensão acima da qualidade de seu
texto, investimento em fórmulas que já não convencem. Este seu primeiro
romance é um bom exemplo: um “romance urbano” com um “protagonista
deslocado”, perdido em “questões de sobrevivência e sexo”, redigido em
uma “escrita cinematográfica”, que na verdade é uma prosa que se
pretende densa e nebulosa, mas apenas abusa de orações coordenadas sem
parecer que sabe onde quer chegar. Puxa, como ninguém pensou nisso
antes?
Dois Irmãos, de Milton Hatoum
Já houve um Jorge Amado, e foi suficiente.
Estorvo, de Chico Buarque
– O que dizer quando o título diz tudo? Chico, como escritor,
costuma, na minha modesta opinião, emular outros escritores, com
resultados sempre inferiores aos do original.
– A prova impressa de que a genialidade em determinado campo
artístico não implica em qualquer tipo de brilhantismo nos demais.
Compositor de raro talento, Chico é um escritor medíocre, infelizmente.
Acho que nem fã de carteirinha aguenta esse árido calhamaço de coisa
alguma.
Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho
Outro livro enorme, uma biografia excessivamente ocupada do varejo,
do trivial-mínimo, da vida pessoal de Fernando Pessoa, que o autor jura
ter visto nas ruas de Lisboa (isto é, a alma penada do poeta), talvez
sinalizando que ele, Cavalcanti Filho, escrevesse sobre quantas vezes,
por exemplo, um bardo alfacinha é capaz de ir ao banheiro, num único
dia, depois de ter repetido o fundo prato da caldeirada do “Martinho das
Arcadas”… (F.M.)
Harmada, de João Gilberto Noll
Na orelha de Harmada, da Companhia das Letras, Flora Sussekind diz
que o “método narrativo característico” de João Gilberto Noll é “o do
‘enfraquecimento’ em moto contínuo do sujeito”. Já se demonstrou, até a
saturação, que é possível escrever um romance ou uma novela sem enredo.
Mas sem personagem? Chega a ser constrangedor ter de dizer que sem
personagem não existe romance ou novela, ou que quanto mais apagado for o
personagem, menos romance ou novela temos, o que no fim dá na mesma.
Quando digo personagem apagado, quero dizer personagem sem nitidez para
nós, leitores. Claro que ele pode ser uma pessoa apagada, como tantas
que conhecemos. Mas aí talvez se exija mais agudeza do romancista, já
que uma figura mais fugidia, com motivações mais misteriosas, necessita
de um texto muito mais preciso. Se o método de João Gilberto Noll é
acabar com os personagens, não discuto — deve ter suas razões. Mas seria
bom que parassem de chamar o livro dele de romance, confere? Se há uma
coisa que me tira do sério são elucubrações críticas para justificar um
mau livro. Acho injusto, primeiro, com o autor, que continuará sem base
para pensar sua literatura. Segundo, com os leitores que, além de
pagarem pelo livro, correm o risco de se sentirem burros por não terem
entendido nada ou se chateado mortalmente.
Helena, de Machado de Assis
Êta romancinho chato de início de carreira. Depois, claro, Machado se redimiu.
Ilíada e da Odisseia, de Homero em tradução de Manuel Odorico Mendes
Gongorismo pedante, escrito para um só leitor, o próprio tradutor.
Com direitos autorais caducados, virou texto fácil, iludindo leitores e
os afastando da melhor literatura de todos os tempos, Homero.
Iracema, de José de Alencar
– Alguém ainda precisa ler um livro que diz que o mar é uma “líquida
esmeralda”? Isso era ruim naquele tempo. Hoje é puro kitsch.
– A prosa poética de José de Alencar está morta, mas alguns ainda
colocam nossas crianças em contato com ela. Muito mais adequado seria
apresentar-lhes a Iracema de Adoniran.
Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo
Este é um exemplo dos perigos da literatice desvairada. Rubem Fonseca
escreveu um conto que escapava por muito pouco do inapelável mau gosto,
chamado Copromancia, sobre um cara que prevê o futuro pelo desenho
formado pelas fezes no vaso sanitário. Quem achava que um argumento
literalmente de merda desses se esgotava na vida curta de um conto foi,
anos depois, apresentado à glosa do mote: este romance no qual um
neurótico arquivista reescreve de modo monomaníaco clássicos da
literatura (como a própria autora do livro quer fazer?) e, nos
intervalos, prediz o futuro pela posição dos… bem, dos toletes no vaso.
Até que o personagem lê o tal conto de Fonseca e se convence de que o
escritor recluso roubou sua ideia, passando a persegui-lo. Indecisa
entre o pastiche o suspense (até porque o ponto de partida é tão
farsesco que é impossível levar o clima a sério), a obra não boia, e sim
afunda, para ficar no âmbito temático do romance.
Juca Mulato, de Menotti Del Picchia
Livro de poemas ainda preso ao formalismo perdulário do regime
parnasiano e que flerta com a disposição gráfica dos versos livres
obedientes a um modernismo de fachada. Temática nacionalista e
folclórica, mas sem a radicalidade poética, por exemplo, do poema “Cobra
Norato” de Raul Bopp. (R.A.)
Lucíola, de José de Alencar
Embora haja um espaço para José de Alencar na literatura como uma
espécie de grande e voraz precursor, esta sua obra, parte do ciclo
“urbano” de seu trabalho, é uma das maiores pérolas do humor
involuntário na literatura brasileira. A prostituta de bom coração
obrigada a corromper-se como arrimo da pura e inocente irmãzinha… Vale
por uma cena de putaria light lá no meio, quando Lúcia resolve fazer um
strip – ou o que passava por isso no século XIX – em uma reunião social.
No demais, corações pulsantes, paixões desvairadas, mortes por doença e
um enredo tão improvável que não serve sequer como um retrato acurado
da sociedade do período (desculpa, Antonio Cândido, mal aí).
Mad Maria, de Marcio Souza
Uma das piores coisas que pode acontecer com um escritor é sair com
um grande livro e nunca mais repetir a dose. Marcio Souza começou com o
sensacional Galvez, Imperador do Acre, e nunca mais. “Mad Maria” deve
ser o pior dos demais, por ter uma história tão boa pra contar, e não
contar.
Manhã Transfigurada, de Luiz Antonio de Assis Brasil
Criar imagens é mesmo uma arte dominada por poucos. É preciso ter
noções de decoro, é preciso que as imagens estejam sintonizadas com o
“tom” do texto. No entanto, em “Manhã transfigurada”, esse livro em que o
cérebro dos personagens parece ter sido misteriosamente sugado por uma
força estranha, não encontramos tal cuidado. Não apenas os seios sacodem
“como pudins”, como também somos forçados a entrar na cabeça de um
personagem que deseja saber se a vagina de uma moça é peluda ou não: “A
ideia vagava, e o pensamento obsceno vinha brutal: e as partes do amor,
em Camila, como seriam? Polpudas ou lisas, glabras ou velosas? Que
cheiro, que odor desprendiam?”. Ai.
Máximas no Twitter, de Demóstenes Torres
Sim, Demóstenes Torres lançou um livro. A partir de tweets. Li parte
do conteúdo da “obra” por meio da internet e bem, é tão relevante quanto
se poderia imaginar. Cito a “obra” como homenagem a 99% da literatura
produzida por políticos em nosso país — toneladas de livros que,
somados, não rendem 140 caracteres dignos de leitura.
Mulher de um Homem Só, de Alex Castro
Se fosse um filme, diríamos que há erros de continuidade. Sim, há
flagrantes lapsos e não se trata de experimentalismo. Aconteceu por
esquecimento, pressa ou desídia. Não é uma obra absolutamente
desprezível, tem duas ou três cenas legais, mas parece faltar-lhe várias
páginas, o que lhe fere de morte.
Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei, de Paulo Coelho
Neste livro, a literatura de Paulo Coelho surge em todo seu
esplendor: rasteira, de linguagem paupérrima, com personagens
unidimensionais e uma filosofia profunda como uma poça d’água. Para quem
quer “conhecer”, as primeiras 20 páginas são prato cheio – depois, só
sendo masoquista.
O Clube dos Anjos, de Luís Fernando Verissimo (Gula)
A editora Objetiva encomendou a grandes nomes da literatura
brasileira romances que girassem em torno dos pecados capitais.
Verissimo escreveu um livro inapetente sobre a Gula. Eu resumiria assim a
questão: serás perdoado pela preguiça se não leres o livro sobre a
gula, cujo autor corre sérios riscos de ser punido por aceitar escrever
por ganância tamanho abacaxi que serve apenas para despertar a ira.
O dia em que matei meu pai, de Mario Sabino
Complacente exercício de ficção no qual um homem narra a uma
psicóloga as circunstâncias que o levaram ao parricídio. É um livro
desconjuntado, em que, de uma hora para outra, o relato do paciente à
médica é interrompido pela interpolação absolutamente gratuita de
noventa páginas de um relato farsesco que pretende ecoar a trama
principal, mas apenas consegue cansar o leitor. A voz do narrador, de
uma pedanteria artificial e afetada, também não ajuda — oh, lá vem mais
um narrador não confiável em narrativa em primeira pessoa… que original.
O Guarani, de José de Alencar
Ainda não entendo por que diabos nossos jovens estudantes são
submetidos a semelhante tortura. Se é pelo caráter histórico, melhor ter
recuperação no verão de Porto Alegre do que lê-lo. Façam a gurizada ler
“Memórias de um Sargento de Milícias” que vão ganhar bem mais.
O Presidente Negro, de Monteiro Lobato
Porque o livro profetizava, entre outras coisas, o seguinte: “…será o
choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de
proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas,
elegendo um presidente negro!”. Lobato também se referia a um “perigo
amarelo” localizado num futuro distante, a obra é de 1926. (R.A.)
O Reino das Cebolas, de Cintia Moscovitch
Uma porcaria total, metido, mal escrito, presunçoso, sem beleza ou trama.
O Romance d`a Pedra do Reino e o Príncipe de Sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna
Foi sucesso de vendas, quando lançado (no natal de 1971), talvez
porque um monte de gente comprou, não leu e presenteou logo em seguida.
Estranho: é o mais bem-sucedido – comercialmente falando – livro
não-lido da recente história literária brasileira. Porém, ninguém perdeu
nada com isso: trata-se de um romance prolixo
(“vai-e-volta”, realmente) e super-repetitivo. Pouca gente consegue
chegar ao fim desse “tijolo” de letras do entrevistado preferido de Jô
Soares, que poderia entrar nesta linha com o seu “O Xangô de Baker
Street”. (F.M.)
Olhai os lírios do campo, de Erico Verissimo
História pueril, cheia de clichês, lugares comuns, sentimentos falsos, piedosos, quase tão ruim como Saga.
Os Brasileidas, de Carlos Alberto Nunes
Depois de traduzir Homero, toda a obra de Platão e toda a obra de
Shakespeare, precisava verter em versos épicos a saga de Raposo Tavares?
Não, jamais!
Ressurreição, de Machado de Assis
Li há dezenas de anos, mas o trauma ficou. Lembro que achei um dos troços mais tediosos que me caíram nas mãos.
Tratado Geral da Reunião Dançante, de Paulo Coimbra Guedes
Nostalgia barata com pretensão de antropologia histórica.
Um Castelo no Pampa, de Luís Antonio de Assis Brasil
Não sei como Assis Brasil, um escritor experiente, no seu nono livro,
se permitiu tantos lugares-comuns, coisas do tipo “pérolas de suor”, ou
“reinava a amargura”. Eles não podem ser atribuídos à linguagem dos
personagens — todos falam igual, sem diferença de idade, sexo, cultura
ou posição social, uniformização difícil de explicar. Depois o autor se
colocou na velha posição do autor onisciente, aquele que tudo sabe e
tudo vê, intensificando a sensação de que ele, Assis Brasil, é quem fala
assim. Para completar, há os arcaísmos — não apenas uma incrível
preferência por termos em desuso, mas inclusive por construções também
antigas. Tem horas que parecemos estar numa dessas traduções lusitanas,
onde as pessoas não se aborrecem, não se chateiam, não se entediam, mas
se “maçam”. Há montes de personagens, mas não se relacionam, percebem?
Têm ódios e simpatias, mas isso é dito assim em seco, como se ódios e
simpatias estivessem petrificados, como se não tivessem zonas de sombra e
luz, como se não oscilassem, não se modificassem. A gente termina o
livro com a impressão de que Assis Brasil pula de um personagem para
outro porque simplesmente não sabe o que fazer com nenhum deles.
Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar
Recebi o Copo de Cólera do saudoso José Maria Cançado, li e lembro de
ter achado que alguma coisa havia de errado com um de nós. Até hoje
acho que era com o JMC ou com o livro. Linguagem um tanto ultrapassada,
alguma cólera e nenhum copo, que eu lembre.
Um Quarto de Légua em Quadro, de Luís Antônio de Assis Brasil
Ficção histórica didática demais, com um andamento arrastado, sem que
os personagens conquistem a simpatia de querermos saber o que lhes
acontecerá.
Videiras de Cristal, de Luís Antonio de Assis Brasil
Ao publicar “O pintor de retratos”, Assis Brasil afirmou que se não
conseguisse mudar a sua forma de escrever, talvez nunca mais voltasse a
publicar um livro. Promessas… Todos os problemas que o velho Assis
identificava na obra do jovem Assis estão cristalizados (sorry…) em
Videiras de Cristal. Trata-se de um calhamaço de quase 600 páginas, cada
uma delas cuidadosamente recheada de frases (igualmente) intermináveis,
de diálogos improváveis e de personagens tão pouco críveis que acabaram
virando filme nas mãos do inominável Bruno Barreto. Lá encontrarás um
tema poderoso, a guerra dos Muckers e a colonização alemã, descrito por
meio de platitudes como ‘As almas dos fiéis se assemelham a videiras de
cristal: fecundas nos verões luminosos, mas frágeis e quebradiços quando
cobertas pela geada do inverno’.
Agradecimento: os livros utilizados na foto de abertura da
matéria foram aqueles que encontramos na livraria Beco dos Livros da
Gen. Câmara. Somos gratos à Cláudia Maiari, que nos auxiliou e permitiu
que desorganizássemos o sebo.
SERÁ QUE SOMOS RACISTAS?
Zuenir Ventura demonstra, no Globo,
que, ao contrário do que pensa Ali Kamel, a realidade é diferente.
Provas disso são os exemplos recentes de discriminação num clube do Rio e
numa concessionária BMW.
Anos atrás, Ali Kamel, diretor de jornalismo da
Globo, publicou um livro chamado "Não somos racistas", que tinha como
objetivo impedir o avanço da política de cotas. Kamel perdeu esse
combate e, agora, no próprio Globo, o jornalista Zuenir Ventura
demonstra que o Brasil ainda é um país racista. Leia abaixo:
O GLOBO - 26/01
Episódios como o das babás discriminadas em clubes sociais
e o da criança negra que foi destratada e quase expulsa de uma
concessionária da BMW no Rio demonstram que o racismo, apesar de
resolvido legalmente, já que é crime, ainda constitui um problema no dia
a dia das relações interpessoais, onde às vezes se manifesta
explicitamente. O sociólogo Florestan Fernandes dizia que o brasileiro
tem preconceito de ter preconceito. Em outras palavras, o Brasil seria
um país com racismo, mas sem racistas, como revela uma pesquisa em que
87% das pessoas entrevistadas afirmaram haver racismo, mas só 4% se
confessaram racistas. Muitos alegam que se trata de "racismo cordial"
bem diferente do que existe nos EUA, por exemplo. Seria mesmo cordial
ou, ao contrário, é velado, camuflado, que quando flagrado se disfarça,
alegando engano ou má interpretação?
Na tal loja da Barra, o gerente de vendas viu o menino de 7
anos assistindo a televisão enquanto os pais adotivos, brancos,
escolhiam um carro. Sem saber que pertenciam à mesma família, não teve
dúvida. Na certa era um moleque de rua que ia pedir dinheiro, incomodar
os clientes. "Aqui não é o lugar para você, saia" ordenou. Na nota em
que tenta se justificar, a empresa diz que não foi bem assim, que houve
por parte do casal "um mal-entendido" Porém, a mãe Priscilla garante que
não, que foi um bem entendido gesto de racismo: "Se fosse uma criança
branca, ele mandaria sair da loja?"
No facebook, para onde o casal levou seu protesto e lançou
a campanha "preconceito racial não é mal-entendido" a reação foi
imediata. Cerca de 16 mil internautas se manifestaram com mensagens de
apoio. Tomara que a proporção seja essa: que para uma loja que pratica o
racismo haja milhares de pessoas contra. Porém, pior ainda do que essas
atitudes explícitas, que pelo menos despertam repulsa, é a situação
social, econômica e cultural da população não branca no país. Tratadas
com naturalidade, as desigualdades raciais no campo da saúde, da
educação e do mercado de trabalho são tão iníquas que em alguns casos
parecem saídas da novela "Lado a lado" um retrato fiel e competente da
luta contra a intolerância racial e religiosa após a abolição da
escravatura e no começo da República. Apenas um exemplo: o risco de
morte por doenças infecciosas é hoje 43% maior entre as crianças negras
com menos de um ano de idade do que entre as brancas. Isso eqüivale a
expulsar da cidadania, senão da vida, toda uma geração de negros.
Muitos alegam que se trata de "racismo cordial". Seria
mesmo cordial ou, ao contrário, é velado, camuflado, que quando flagrado
se disfarça, alegando engano ou má interpretação?
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